Mais de 500 assaltos a ônibus em Salvador

Autor: Tribuna da Bahia

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Pegar um ônibus em qualquer grande cidade brasileira já é uma aventura, no sentido mais negativo da palavra. Não é só pelas condições dos transportes, ou pela grande demanda para a quantidade pequena de linhas e veículos, mas também pela violência urbana que, por surgir sempre inesperadamente, apavora e faz a população de refém, tanto quanto os profissionais que vivem do transporte coletivo diariamente.

A realidade não faz parte apenas de quem vive em Salvador, podendo ser notada em outras capitais, como Recife, Porto Alegre, Fortaleza e São Luís. Na capital vizinha, Aracaju, que, por anos, ficou conhecida como “a capital da qualidade de vida”, os três primeiros meses de 2016 já possuía uma média de cinco assaltos por dia – um número alto para uma cidade com pouco mais de 600 mil habitantes.

Até o último domingo (24), a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) já havia registrado em seu boletim, o total de 568 roubos a transportes coletivos na capital baiana desde 1 de janeiro. A média de delitos caiu para 5,1 assaltos por dia – nos dois primeiros meses, ela alcançava a marca de seis roubos diariamente –, mas ainda tira a tranquilidade tanto do passageiro, e principalmente de quem precisa estar nos ônibus todos os dias para garantir o pão de cada dia.

De acordo com o diretor de comunicação do Sindicato dos Rodoviários da Bahia, Daniel Mota, os traumas que ficam para os trabalhadores do coletivo demoram a passar e não têm o acompanhamento adequado, orientado por psicólogos ou assistentes sociais que possam trabalhar com o lado emocional dos profissionais. Alguns chegam a serem afastados de suas atividades por desenvolverem síndrome do pânico. Mas, por temerem represálias da empresa, os funcionários, muitas vezes, preferem não acionar o sindicato.
“Um dos maiores medos atualmente é de uma troca de tiros dentro do veículo. Após uma ocorrência como esta, o motorista e o cobrador já ficam traumatizados, e torturados psicologicamente. Além disso, poucos são os que acionam o sindicato. E, dessa forma, tudo que a empresa faz é transferi-lo para outra linha. O sindicato, quando acionado, libera o motorista do resto de seu expediente no mesmo dia”, explicou o sindicalista.

Outro problema, segundo ele, é que os funcionários, por já se encontrarem fragilizados, preferem não ir fazer o reconhecimento do suspeito na delegacia quando este é autuado. Mota revelou ainda que o sindicato já teve inúmeras reuniões com os órgãos responsáveis pela segurança da pública, entregando, inclusive, um mapa com as áreas mais críticas, em relação a roubos aos coletivos.

Ferramenta de aplicativo não detectou assaltos

Desde quando foi atualizado, em setembro de 2015, o CittaMobi – aplicativo de dispositivos móveis que dispõe de informações sobre o transporte coletivo de Salvador, a exemplo de itinerários, horários de previsão para pontos de ônibus, etc. – possui uma ferramenta que, quando acionada, informa à Central de Monitoramento a ocorrência de alguma ação violenta dentro do coletivo de onde está sendo transmitido.

Tal ferramenta, contudo, nunca foi utilizada para esta finalidade. Segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob), desde setembro, esse “botão do pânico” já foi acionado 70 vezes, porém todas elas foram frutos de testes ou brincadeiras, nunca se tratando de qualquer ocorrência real.

O uso do dispositivo também não é recomendado pela Polícia Militar, que, em nota, afirma ter, desde seu lançamento, julgado “temerário o seu acionamento em crimes no interior dos veículos do transporte coletivo. Os smartphones são os principais alvos da cobiça dos autores dos roubos em coletivos e o acionamento de um dispositivo de emergência, quando detectado pelos perpetradores do delito, poderiam suscitar reações violentas, expondo a risco os usuários”.

Em relação aos roubos dentro dos coletivos, a corporação afirma que tem intensificado as ações de prevenção e combate à modalidade criminosa, ampliando a Operação Gêmeos. Outra estratégia do comando foi o envolvimento das unidades de área na realização rotineira de abordagens preventivas e na intensificação da presença ostensiva das guarnições policiais nos principais corredores de tráfego da capital baiana.

Ainda de acordo com o Departamento de Comunicação Social da PM, o último levantamento datado de 18/04, indicava uma redução de aproximadamente 60% na redução deste delito no mesmo período de 2015 e no acumulado do ano era pontuada uma redução de 20,2% no número de registros.